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sexta-feira, 28 de abril de 2017

A CONSCIÊNCIA DE AFRODITE

Afrodite, a Deusa Alquímica
Deusa do Amor e da Beleza

 Afrodite inclui-se na categoria muito própria de Deusa Alquímica, uma designação adequada ao processo mágico ou poder transformador que só Ela tinha.

Na mitologia grega, Afrodite era uma presença reverenciada e temida, que levava @s mortais e as divindades (à excepção das três deusas virgens) a apaixonarem-se e a criarem vida. Embora possua algumas características em comum tanto com as deusas virgens como com as deusas vulneráveis, não pertence a nenhum dos grupos.

Afrodite, a deusa que teve mais ligações sexuais, não era definitivamente uma deusa virgem, apesar de se parecer com Ártemis, Athena e Héstia pelo facto de fazer apenas o que lhe agradava. Também não era uma deusa vulnerável, embora se assemelhasse a Hera, Deméter e Perséfone pelo facto de se ligar a divindades do sexo masculino e/ou ter filhos. Todavia, ao contrário dessas deusas, Afrodite nunca foi vítima da paixão indesejada dum homem por ela. Valorizou a experiência emocional com outros mais do que a independência em relação a eles (que movia as deusas virgens) ou os laços permanentes com outr@s, que caracterizam as deusas vulneráveis.

Enquanto Deusa alquímica, Afrodite apresenta algumas semelhanças com as outras duas categorias, apesar de ser intrinsecamente diferente de ambas. Para Afrodite, as relações são importantes, mas não enquanto compromissos a longo prazo com outras pessoas (que caracterizam as deusas vulneráveis). 

Afrodite procura consumar relações e gerar nova vida. Esse arquétipo pode ser expresso por meio de relações físicas ou de um processo criativo.

 O que Ela procura difere do que procuram as deusas virgens, mas Afrodite assemelha-se a elas pelo facto de ser capaz de se focar no que é pessoalmente significativo para Ela; os outros não a conseguem fazer desviar do seu objectivo. E, no facto de o que Ela valoriza ser unicamente subjectivo e não poder ser medido em termos de êxito ou reconhecimento, Afrodite é, paradoxalmente, mais semelhante à anónima e introvertida Héstia que, à superfície, é a Deusa menos parecida com Afrodite.

Qualquer pessoa ou qualquer coisa que Afrodite imbua de beleza é irresistível. Ocorre uma atração magnética entre as pessoas, uma “química”, surgindo um desejo de união acima de tudo. As pessoas sentem um desejo irresistível de se aproximarem, de terem relações, de consumarem a união – ou de “se conhecerem” uma à outra, no sentido bíblico da expressão. Embora essa necessidade possa ser puramente sexual, o impulso é muitas vezes mais profundo, representando uma necessidade tanto psicológica como espiritual. Ter relações é sinónimo de comunicação ou comunhão, consumar pode significar um forte desejo de plenitude ou perfeição, união significa ambas as pessoas fundirem-se numa só e conhecer é realmente compreenderem-se mutuamente. É o desejo de conhecer e de ser conhecida/o que Afrodite gera.

Se conduz à intimidade física, esse desejo pode ser seguido de fecundação e de nova vida. Se a união é também, ou é tão-somente, entre as mentes, os corações ou os espíritos, observa-se um novo desenvolvimento nas esferas psicológicas, emocionais ou espirituais. Quando Afrodite influencia uma relação, o seu efeito não se limita aos aspectos românticos ou sexuais. O amor platónico, a ligação das almas, a amizade profunda, a harmonia ou a compreensão empática são expressões de amor. Sempre que há crescimento, melhoria na compreensão, desenvolvimento do potencial ou estímulo à criatividade (como pode acontecer nas actividades de tutoria, aconselhamento, educação, direção, ensino, psicoterapia), lá está Afrodite, afectando ambas as pessoas envolvidas.

A CONSCIÊNCIA DE AFRODITE 

A qualidade de consciência associada a Afrodite é única. As deusas virgens são associadas à consciência focada e são os arquétipos que permitem às mulheres concentrarem-se no que é importante para elas. A receptividade das deusas vulneráveis equivale à consciência difusa. Afrodite, porém, possui uma qualidade de consciência muito própria, a “consciência de Afrodite”. É focada, embora receptiva; semelhante consciência não só capta aquilo a que presta atenção como é afectada por isso.

 A consciência de Afrodite é mais focada e intensa do que a consciência difusa das deusas vulneráveis. Porém, é mais receptiva e atenta àquilo em que se foca do que a consciência focada das deusas virgens. Por conseguinte não é nem um candeeiro de sala, que ilumina e faz brilhar suavemente tudo o que se encontra no seu raio de alcance, nem um holofote ou um raio laser.

Para Jean Shinoda Bolen, a consciência de Afrodite é semelhante às luzes de teatro que iluminam o palco. O que observamos sob estas luzes da ribalta, acentua, dramatiza ou amplia o impacto que a experiência tem sobre nós. Captamos e reagimos ao que vemos e ouvimos. Essa iluminação especial permite que sejamos transportad@s emocionalmente durante uma sinfonia ou que sejamos tocad@s por uma peça ou pelas palavras dum orador; os sentimentos, as impressões dos sentidos e as memórias brotam de nós em reação ao que vemos e ouvimos. Em contrapartida, as pessoas que estão no palco podem sentir-se inspiradas por uma audiência e estimuladas pela relação que sentem que se está a estabelecer. O que se encontra sob as “luzes da ribalta” absorve a nossa atenção. Somos atraídas/os sem esforço para o que vimos e sentimo-nos descontraídas/os na nossa concentração. Seja o que for que vejamos sob a luz dourada da consciência de Afrodite, torna-se fascinante: o rosto ou o carácter duma pessoa, uma ideia sobre a natureza do universo ou a transparência e forma duma peça de porcelana.

Quem se tenha apaixonado por uma pessoa, um lugar, uma ideia ou um objeto, foca-se neles e capta-os com a consciência de Afrodite. Porém, nem todas as pessoas que usam a consciência de Afrodite estão apaixonadas. A forma “apaixonada”, típica de Afrodite, de prestar atenção a outra pessoa, se ela é fascinante e bela, é característica das mulheres que personificam o arquétipo e é uma maneira natural de relacionamento e de recolha de informações para muitas mulheres (e homens) que gostam de pessoas e focam toda a sua atenção nelas de uma forma intencional.

ma mulher assim apreende as pessoas da mesma forma que um conhecedor de vinhos presta atenção às características dum vinho interessante e desconhecido e se apercebe delas. Para apreciar plenamente a metáfora, imaginemos um entusiasta de vinhos a gozar o prazer de se familiarizar com um vinho desconhecido. Ergue o recipiente contra a luz para observar a cor e a transparência do vinho. Inala o bouquet e sorve lentamente um golo para captar o carácter e a suavidade do vinho; chega a saborear o travo que fica na boca. Porém, seria um erro partir do princípio de que a “atenção afectuosa” e o interesse que revela pelo vinho significam que esse vinho em particular é especial, valorizado ou mesmo apreciado. 

Trata-se do erro que as pessoas cometem frequentemente quando reagem a uma mulher com a consciência de Afrodite. Expostas ao brilho do seu foco, sentem-se atraentes e interessantes à medida que ela as estimula e reage com afeto ou apoio (em vez de com avaliações ou críticas). É o seu estilo de se envolver genuína e momentaneamente com seja o que for que a interesse. O efeito sobre a outra pessoa pode ser sedutor e enganoso, se a sua maneira de interagir dá a impressão de que está fascinada ou enamorada, quando não é esse o caso. 



CONSCIÊNCIA, CRIATIVIDADE E COMUNICAÇÃO DE AFRODITE

Jean Shinoda Bolen refere que descobriu a consciência de Afrodite quando compreendeu que nem a “consciência focada” nem a “consciência difusa” descreviam o que ela própria fazia no seu trabalho de psicoterapeuta.

Ao estabelecer a comparação com artistas e escritores, apercebeu-se de que, no trabalho criativo, funcionava um terceiro modo, que passou a denominar “consciência de Afrodite”. “Numa sessão de terapia, reparei na ocorrência de vários processos em simultâneo. Estou absorta a escutar o meu doente, que tem toda a minha atenção e compaixão. Ao mesmo tempo, a minha mente está ativa, estabelecendo associações mentais com aquilo que ouço. Ocorrem-me coisas que já sei sobre a pessoa: talvez um sonho passado, informações sobre a família, um incidente anterior ou acontecimentos correntes na sua vida que podem estar relacionados. Às vezes surge uma imagem ou uma metáfora. Posso ainda ter uma reação emocional, quer ao material quer à forma como é expresso, reação essa que anoto. A minha mente trabalha ativamente, mas de uma forma recetiva, estimulada pelo facto de estar absorta na outra pessoa (…).”

A consciência de Afrodite está presente em todo o trabalho criativo, incluindo naquele que se realiza na solidão. O diálogo da “relação” processa-se pois entre a pessoa e o trabalho, do qual emerge qualquer coisa nova. É uma troca entre o artista e a tela e o resultado é a criação de qualquer coisa que antes não existia. 

 Fonte: Jean Shinoda Bolen, AS DEUSAS EM CADA MULHER, Planeta Editora

Imagens: altar de Afrodite
              Alexander Rokoff
              Vénus Verticórdia, Dante Gabriel Rosseti
              Afrodite Urânia, Christian Griepenkerl
              Herman Smorenburg
              Laurie Blank

Tudo sobre Afrodite/Vénus: http://pt.fantasia.wikia.com/wiki/Afrodite

quarta-feira, 26 de abril de 2017

AFRODITE, GRANDE DEUSA MÃE, MOSTRA-NOS O CAMINHO



Nenhuma outra deusa representa as qualidades femininas do amor e da beleza como Afrodite. Esta deusa grega é na verdade a mais antiga encarnação da Grande Mãe, Deusa da Fertilidade e de tudo o que é. Trata-se dum arquétipo que remonta a um tempo porventura ainda anterior ao Neolítico.

Todas as figurinhas redondas representando a Deusa Mãe encontradas na Europa e na Ásia são chamadas Vénus, tal como a Vénus de Willendorf, a Vénus de Lespugue, a Vénus de Dolni, etc. Elas representam a forma mais antiga do sagrado feminino, a Grande Deusa. Vénus é a Sua homóloga romana mais moderna, mas esta divindade não representa a ligação profunda e o amor pela terra e por todas as suas criaturas, nem a associação com a Lua Cheia e a fertilidade, como a Grande Mãe.

O nome “Afrodite” significa “nascida da espuma do mar”, do oceano, do útero da Grande Mãe. Diz-se que o seu local de nascimento é perto da Ilha de Chipre, embora outr@s digam que Ela vem das estrelas. O Seu mito, no entanto, descreve-A sempre surgindo no mar ou dirigindo-se para a terra vinda do mar. Neste sentido, podemos considerar que Afrodite deu origem a si mesma, tal como nós podemos renascer de nós mesmas, vendo-nos duma forma completamente nova.


Há várias representações da Deusa olhando-se num espelho, o que evoca o tema da Deusa refletindo-nos a nós mesmas. Ao vermos a deusa do amor e da beleza na forma de Afrodite, vemos o nosso próprio amor e beleza e todas as suas possibilidades devolvidas a nós mesmas. Ao vermo-nos a nós mesmas desta maneira, através da lente do divino feminino, com novos olhos, por assim dizer, nós renasceremos numa nova forma feminina, e muito bela aos nossos olhos, e poderemos amar cada parte de nós. Todos os nossos defeitos e imperfeições desaparecem. Para a atriz Alfrie Woodard “Tod@s tempos uma parte do nosso corpo de que não gostamos, mas eu deixei de me queixar do meu porque não quero criticar o trabalho da própria natureza. A minha tarefa consiste apenas em permitir que a luz faça brilhar esta obra-prima.”

Devemos aprender a amar-nos a nós mesmas, a aceitar a confusão e os erros das nossas vidas, todos os solavancos e protuberâncias, dúvidas e medos, para, com muito amor, as podermos transformar. Diz-se normalmente que Afrodite é uma Deusa alquímica, pela Sua capacidade de nos transformar a partir do nosso interior. Quando conseguimos amar as nossas imperfeições, podemos amar as das outras pessoas, trazendo para a nossa vida mais tolerância e aceitação, ingredientes indispensáveis na alquimia do amor. Quando deixamos de nos julgar, deixamos de julgar também as outras pessoas. Quando deixamos de sentir a necessidade de nos criticarmos a nós mesmas, deixamos de sentir a necessidade de criticar as outras pessoas. Afrodite mostra-nos o caminho permitindo-nos ver que cada forma de beleza tem as suas falhas e que a perfeição é uma ilusão, um exercício de futilidade destruidor da alma.

Se nós aceitarmos, e se até amarmos os nossos defeitos, as nossas peculiaridades, as nossas “perfeitas imperfeições”, nós redefiniremos o conceito de beleza incluindo nele a nossa própria forma, a nossa humanidade. É por isso que precisamos de aprender a cuidar de nós mesmas duma forma radical. Precisamos de aprender a amar-nos a nós próprias primeiro porque só assim seremos capazes de amar outras pessoas de forma completa. Isto não significa que eu me torne narcísica, mas sim que eu comece o amor por mim mesma e só então ele irradiará para fora de mim.


Demasiadas vezes as mulheres sentem-se vazias, esgotadas, mas sempre a dar aos outros, esquecendo-se de si próprias. Esquecemo-nos de encher o poço. E para isso precisamos de nos sentir merecedoras e é aí que surge Afrodite. Embora haja várias formas de olhar para o arquétipo de Afrodite, eu escolho vê-la como uma Grande Deusa Mãe, que nos pode ajudar a amarmo-nos a nós mesmas, a vermos a nossa própria beleza e a tomar melhor cuidado de nós. Toda a boa mãe sente que a sua filha e o seu filho merece muito amor. Sem dúvida que Afrodite sente que merece muito amor e prazer e Ela sabe que nós também merecemos. Precisamos de pôr esta ideia em prática, de redescobrir e intensificar a nossa natureza sensual, para nos descobrirmos a nós mesmas através da criatividade e aprendermos a ir mais fundo na vida e especialmente a amarmo-nos e a cuidarmos melhor de nós mesmas.

http://owlandcrow.saladd.com/2012/02/20/aphrodite-great-mother-goddess-shows-us-the-way/ (traduzido e adaptado por Luiza Frazão)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

KATHY JONES EM PORTUGAL 2017

É Sacerdotisa de Avalon e formadora de Sacerdotisas, uma formação criada por si; co-fundadora do Glastonbury Goddess Temple e fundadora da Glastonbury Goddess Conference e vem a Portugal a 11 e 12 de março


 Pode ver aqui pormenores do evento, dirigido tanto a mulheres como a homens, e trata-se dum trabalho profundo relacionado com o Jardim das Hespérides:

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

MAIS DO QUE AS FILHAS DILETAS DOS SEUS PAIS... DEUSAS DA SOBERANIA


Nos últimos dias temos assistido àquilo que parece ser a encenação, ou a atualização, dum antigo mito grego, que se repetiu em Roma com outros nomes, e que diz respeito ao nascimento da Deusa Athena, saída da cabeça do seu pai, o grande patriarca do Olimpo (basicamente um violador em série), prontinha e armada para o combate. 

Diz-nos Jean Shinoda, na sua análise dos arquétipos femininos, que esta “filha do seu pai” é a mais acérrima defensora dos valores do patriarcado, arquétipo forte nas mulheres que apostam tudo numa carreira de sucesso, usando como modelo o pai, desvalorizando por completo a mãe, percebida como desempoderada e insignificante, comparada com o pai, a cuja missão dão energia e continuidade.


Na pesquisa de imagens surgiram-me os exemplos acabados que podemos ver aqui, mas foi ao encontrar a imagem de Le Pen com a sua neta, que fez todo o sentido para mim que esta realidade pode ter ainda outra leitura, porventura mais justa, e que é aquela que faz o autor bretão Jean Markale em A Mulher Celta. Aí ele refere uma instituição celta muitíssimo antiga, que aparece no Mabinogion(1), que implicava que o rei impotente devesse, durante a maior parte do tempo, manter os seus pés no regaço duma donzela. Na perspetiva do autor, trata-se no fundo da memória duma sociedade matrifocal, dum tempo em que era a mulher que detinha o verdadeiro poder, que encarnava a verdadeira Soberania: 

“(…) a instituição do “troediawc” é no mínimo curiosa e como todas as instituições curiosas, a sua origem parece ser muito antiga e provavelmente é mal compreendida pelos legisladores do séc. X. Se então a função é confiada a um homem, é normal, trata-se duma sociedade patriarcal. Mas a narrativa de Math ab Mathonwy representa uma tradição mais antiga. Não é um homem que ocupa a função de “troediawc” mas sim uma mulher, o que faz mudar o caso de figura, pois indica, não uma situação anterior, mas a memória duma situação anterior, que, combinada com o regime matrilinear que aparece ainda no Mabinogion, coloca Math na charneira de dois tipos de civilização.


A imagem do rei impotente com os pés no regaço duma donzela, ou seja, duma “morwyn, um ser primordial e feérico saído do mar, uma “morgan, se preferirmos, é simplesmente a imagem do rei saindo do Ventre da Mulher. Se por via de consequência o poder real, aquele que Math encarna de resto muito mal, provém em linha direta duma filiação uterina, provém da mulher que é a verdadeira Soberana, a detentora da Vida. (…) A Soberania, que nas lendas celtas é normalmente encarnada por uma mulher, é esta donzela no colo da qual o rei Math deve manter os pés, sob pena de não mais poder reinar. Logo que soube que o seu sobrinho Gilwaethwy, com a ajuda de Gwyddyon, ultrajou aquela que ocupava esta nobre função, ele foi obrigado a substituí-la, uma vez que a Soberania não pode ser ultrajada impunemente.”

O autor prossegue incluindo a Virgem Maria, sobretudo na iconografia relativa à morte e lamentação de Cristo, neste role de donzelas míticas que encarnam o poder de que o rei vai usufruir, e que no fundo é o próprio poder da Deusa de que elas são a epifania. 

Esta é uma análise que faz todo o sentido para mim, basta ver a aura mística que rodeia estas mulheres.

(1)  O Mabinogion é uma coletânea de manuscritos em prosa escritos em galês medieval. São parcialmente baseados em eventos históricos do início da Idade Média, mas que podem remontar a tradições da Idade do Ferro.

Imagens: Google
1. Zeus dando à luz a sua filha, a Deusa Athena
2. Ivanka e Donald Trump
3. Le Pen com a neta, Marion Maréchal- Le Pen
4. Evita e Juan Peron
4. Marine e Jean-Marie Le Pen
5. Pietà, Fra Bartolommeo (1472-1517)

sábado, 14 de janeiro de 2017

COLABORANDO COM O SISTEMA PATRIARCAL



COMO É QUE, ENQUANTO MULHERES, AJUDAMOS DE FORMA ATIVA OU PASSIVA A MANTER O SISTEMA PATRIARCAL

Por Shekhina Weaver

"Ao tentar perceber como, enquanto mulheres, participamos ativa e passivamente no patriarcado e em como poderíamos recusar essa participação, facilmente ficamos bloqueadas com um sentimento de "não há saída". Na verdade, a nossa participação acontece de várias formas e primeiro precisamos de ser capazes de passar pelo processo de nomeação dessas formas de colaboração para podermos depois começar a pensar em e vislumbrar maneiras REAIS de nos libertarmos.

Esta manhã, eu, Shekhina, fiz um brainstorming com o objetivo de nomear algumas das formas como participamos ativa e passivamente e algumas das maneiras pelas quais estamos literalmente aprisionados/escravizados pelo patriarcado.

A lista é, naturalmente, incompleta, então sinta-se livre para adicionar a sua própria nomeação e/ou discutir esta lista:

- Nós mulheres estamos presas no sistema patriarcal por termos de ganhar a vida fazendo trabalhos que sustentam direta ou indiretamente o paradigma patriarcal do poder sobre a Vida e sobre as mulheres e outros seres humanos que podem literalmente envolver a destruição da Terra;

- por termos de utilizar máquinas (por exemplo, automóveis) ou tecnologias que destroem vidas;

- sermos forçadas pela própria situação económica a comprar produtos produzidos por crianças e/ou mulheres e homens mal remuneradas/os e/ou implicar destruição da Terra (tais como alimentos cultivados com pesticidas);

- termos que entrar em espaços públicos sob a ameaça perpétua, mas muitas vezes não reconhecida, de estupradores, assaltantes sexuais ou homens violentos (esta é a situação de todas as mulheres em todo o mundo a cada momento, dia e noite);

- estarmos num relacionamento com um parceiro abusivo que por algum motivo não podemos deixar;

- sermos forçadas a aceitar religiões e ideias, sistemas, práticas e políticas/sociais/ económicas e culturais destrutivas;

- termos que aceitar que as nossas crianças sejam educadas em escolas e sistemas educativos patriarcais;

2. Nós, mulheres, participamos ativa e voluntariamente no patriarcado, ou pelo menos conscientemente, vivendo padrões de mestre/perpetrador/opressor:

- comprando de forma voluntária máquinas, tecnologias, objetos, alimentos, roupas, lazer, entretenimento, produtos que são gratuitamente produzidos por crianças e/ou mulheres e homens e/ou produtos que envolvem destruição da Terra e/ou outras formas de vida;

- sendo líderes políticas em partidos com agendas que não passam por abordar e expor o patriarcado em cada palavra e ação e libertar a humanidade e a Terra deste tipo de sistema;

- Voluntariamente tendo empregos que sustentam a destruição patriarcal e o paradigma do poder sobre a vida e sobre as mulheres e outros seres humanos;

- unindo-nos voluntariamente aos movimentos religiosos (tradicionais e da Nova Era) que não têm como objetivo principal libertar e curar a humanidade e a Terra do patriarcado;

- utilizando textos científicos, religiosos, espirituais, filosóficos, educacionais e ideológicos que não abordam e exponham explicitamente a negatividade da autoridade patriarcal;

- aceitando de bom grado que as nossas crianças recebam brinquedos de guerra, joguem jogos destrutivos e participem em desportos competitivos e que as nossas filhas recebam bonecas que parecem objetos sexuais;

- aceitando de bom grado que as nossas crianças e adolescentes passem o dia no computador, em frente da televisão ou ouvindo música;

- entoando com entusiasmo ideias masculinas sobre "o masculino e o feminino" (especialmente a ideia de que o feminino é emocional, irracional, intuitivo, recetivo e o masculino é lógico, racional, factual e ativo);

- competindo com e degradando outras mulheres;

- silenciando as mulheres que falam contra a violência masculina, os abusos sexuais, as violações e as guerras, a violência contra a Terra e contra outras formas de vida;

- participando voluntariamente/vivendo a sexualidade pornográfica;

3. Nós mulheres participamos do patriarcado passivamente, aceitando viver com parceiros íntimos que não estão ativamente empenhados em libertar a humanidade e a Terra do patriarcado;

- não falando contra a violência masculina, o abuso sexual, o estupro, as guerras e a violência contra a Terra e outras formas de vida;

- não abordando explicitamente e expondo o paradigma patriarcal do poder sobre a vida e as mulheres como a raiz de todo o mal;

- não designando explicitamente o patriarcado como a raiz da maior parte do sofrimento no mundo;

- temendo a rejeição emocional e  a agressão do parceiro se nos recusarmos a ter relações sexuais por um longo período enquanto ainda desejamos o contacto emocional e/ou sensual (esta é a situação de muitas mulheres também em relações íntimas que são "amorosas" e baseadas na igualdade);

- não nos juntando a outras mulheres para libertar e curar a humanidade e a Terra do patriarcado;
.
- não questionando o patriarcado;

- tácita ou abertamente sentindo e pensando que não é possível mudar nada;

- confiando que a mudança virá e que nos estamos a mover para algo de bom sem fazermos seja o que for para que isso aconteça;

- acreditando que mudando-nos a nós mesmas mudamos o patriarcado;

- confiando que seja como for o bem ganhará;

- acreditando que o sistema não pode ser tão mau quanto nós pensamos que é;

- sentindo-nos intelectualmente inferiores aos homens;

- não nos sentindo fisicamente bonitas e/ou suficientemente boas em geral.

Bem, esta foi a minha lista desta manhã. De que foi que me esqueci ou em que estou errada?"

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Romance BRUMAS DA ILHA, Bianca Furtado



Romance histórico

"No início era Ela, a Mãe de todas as coisas
e Ela se elevou nua no espaço infinito
dançou cada vez mais selvagem
e ao dançar gerou o cosmos."
(Mito grego sobre a criação do universo)

Bianca Furtado é de Florianópolis, da Ilha de Santa Catarina, no estado com o mesmo nome no Sul do Brasil, onde, entre a população colonial portuguesa, a comunidade açoriana imprimiu marcas importantes e indeléveis na cultura. Marcas bem visíveis a olho nu na arquitetura, extremamente bem conservada e valorizada, nas festas de Espírito Santo, ou nas belas e coloridas rendas de bilros tão características do artesanato brasileiro. Também na tradição oral, nos mitos e lendas locais, as Bruxas oriundas do Corvo deixaram vestígios na memória da Ilha de Santa Catarina - esotericamente considerada como a décima ilha dos Açores – o que levou a autora a investigar sobre a sua existência histórica e a seguir-lhes o rasto até ao arquipélago de onde no séc. XVIII tiveram de fugir ameaçadas pelos perigos das investidas da Inquisição contra a vida de mulheres fortes e autónomas.

Bianca Furtado é uma talentosa e deliciosa contadora de histórias e imediatamente entrei no ritmo da vida de Lunae, de sua avó e irmã, no ritmo da sua mágica e frugal existência, em profunda conexão com a natureza da Ilha das Flores e dos seus mistérios, os mistérios da Deusa. Depois a narrativa adensa-se, o pequeno núcleo familiar junta-se à Irmandade da Ilha do Corvo, onde algo de sinistro vem perturbar este mundo feminino, imbuído de grandeza e de harmonia, sem deixar de nos apresentar a sua complexidade e humanos desafios. A certa altura revi-me no cenário e encetei o que senti como um processo cármico que me levou a abrandar o ritmo da leitura, que ainda por cima acontecia pelo Samain…



Sem dúvida que histórias destas, de mulheres independentes, íntegras e dedicadas, com interesses e vida própria, autoinspiradas, vivendo em comunidades respeitadas (não fosse a arrogância religiosa de quem se sente no direito de defender os interesses dum deus “maior” ao qual se atribuem as intenções e os meios de “arrasar a concorrência”), inseridas em outras mais alargadas que usufruirão dos serviços destas mulheres que sabem viver em harmonia e cooperação com os seus irmãos e companheiros, com consciência de que “um homem só é nosso aliado quando não estamos sob o seu poder”, estas história, dizia, precisam tanto de ser contadas! 

Todas e todos precisamos destas personagens, de saber do nosso direito de existir no mundo enquanto mulher, sendo apenas isso, uma mulher, um ser humano; não porque se é a irmã, a namorada, a esposa, a filha ou a mãe de alguém, mas porque se é um ser humano completo em si mesmo, com vida e interesses próprios, com a sua forma exclusiva de ver e de estar no mundo. Por outro lado, valorizar personagens que foram profundamente desvalorizadas e anuladas pela versão dos vencedores, “bruxas peçonhentas que só mereciam mesmo a fogueira” (um sentimento que ainda anda muito por aí) é repor a justiça e o equilíbrio neste mundo.

Por tudo isto, pela grandeza desta narrativa, pela sua relação com a nosso própria história e cultura, pelo seu jeito especial de contar histórias, pelo encanto com que se penetra nos cenários por onde nos conduz, Bianca Furtado merece ser lida. O seu livro tem aliás todos os ingredientes para agradar imensamente ao público português, como está a acontecer no Brasil, de onde aliás já rumaram a Portugal e às ilhas dos Açores as primeiras leitoras mais impressionadas e inspiradas (e com os meios suficientes para o fazerem, claro); a duas delas já as encontrei no coração de Lisboa, na véspera de rumarem até essas ilhas encantadas do Atlântico, preciosas entre todas as que povoam os nossos sonhos e a nossa imaginação.
Bravo, Bianca, espero que continues a relembrar-nos com a tua profunda sabedoria e a tua delicada perspicácia e acutilância as histórias que até há bem pouco tempo nem sequer sabíamos que já tínhamos vivido! 

Luiza Frazão